Libertas quae sera tamem – por José do Vale Pinheiro Feitosa
diversas terça-feira, 30 jun 2009, 15:07 | 1 ComentárioTudo começa com a liberdade da arte. Na mesma semana em que o Marcos Leonel faz uma resenha do Peter Gay sobre a quebra de todos os cânones estéticos existentes pela modernidade. Picasso, por exemplo, representou as mulheres e o feminino em todas as fases de sua obra. Seja nas fases de cores; nas representações estimuladas pelas esculturas ibéricas ou africanas ou no Cubismo e a desconstrução geométrica do mundo visível.
A liberdade na arte seria, por força desta era, a quebra da ordem burguesa e o meio fundante de outra possibilidade. Mas seria, também, a própria emergência do artista como sujeito e claro com toda a sua carga de individualidade no seu mundo de relações. Picasso faz o grande salto do cubismo, um trabalho libertador da era moderna, com as mulheres Les Demoisseles D´Avignon. E pinta mulheres com quem se relaciona, seja a Lolita de 17 anos seu modelo Marie-Térèse Walter; distorceu a imagem pictórica da fotógrafa Dora Maar no meio de um conturbado romance; assim como a mulher com quem teve dois filhos François Gilot.
Picasso sempre partiu em sua obra do mundo exterior e da realidade para logo a seguir estabelecer a dicotomia central da modernidade: o amor à realidade e o horror de sermos reais. Uma mistura de sentimentos contraditórios de formas terríveis e desejáveis com que a vida se manifesta. Por isso a arte da pintura é a quebra da ordem, como a burguesia tinha herdado tanto do renascimento quanto do neoclássico. Picasso tinha uma ira artística contra a figura humana e as figuras femininas foram centrais nisto.
Acho que esta linha já está completa. Agora vamos ao outro lado do debate. Daquele que ocorre num tempo e num lugar, especialmente o Crato. Pegue qualquer referência intergeracional de pessoas vivas sobre a fotografia que temos, no mínimo, oitenta anos de história. E a história da fotografia neste tempo sofreu mudanças inimagináveis no princípio. Mas a mudança, seja das lentes, especialmente as grandes angulares que aproximam e afastam deformando o espaço; seja nos filmes, nas velocidades ou no meio digital; como dizia a mudança tecnológica não é absorvida simultaneamente na mesma velocidade da imagem de um tempo.
Pessoas de diversas gerações, por tudo que foi dito, têm a fotografia como possibilidades diferentes. Por exemplo, o ângulo familiar, ou a paisagem, seja o retrato pessoal, seja um instantâneo, ou que outro conteúdo fotográfico tenha. Claro que qualquer pessoa em que idade tenha não absorverá igualmente a fotografia como a pintura. As mudanças estéticas na fotografia são mais recentes que a pintura. Quase todos, mesmo com mais de 70 anos já conheceu as mulheres de Picasso, não igualmente a própria imagem por uma fotografia.
Voltemos à exposição no blog das tais fotos. É claro que a intimidade, mesmo que paradoxalmente de um grupo, estava no espírito das comemorações quando o fotógrafo as publica. Ele a faz como numa espécie de manifestação sincera da sua captura da realidade (não vejo qualquer referência daquela história de Picasso) e com entusiasmo a torna imagem nas telas. É tão verdade que no espírito animado do dia põe uma nota no blog dizendo que o domingo já era em termos de postagem por conta de tanta festa.
Foi aí que um fato animado com uma eventual censura na contramão, deu ao ocorrido uma dimensão maior que na verdade teve ou terá. O direito de contrariedade é universal (ainda mais num blog) e as possibilidades da arte na modernidade continuam como a liberdade de desconstruir algo que, aparentemente sólido, se desmancha no ar. Mas, em minha opinião, não chegamos a muito desta contradição, apenas, quando se trata da realidade pessoal é sempre importante ao fotógrafo contemplar o seu próprio drama com a propriedade: o direito da obra e o direito da imagem pessoal.
José do Vale Pinheiro Feitosa















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