Resumo sobre a História do município do Crato – Parte 1/3 – Por: Ana Paula Monteiro – Especalizanda em História do Brasil/ URCA


NE - Recebemos um documento maravilhoso da historiadora Ana Paula Monteiro. Trata-se de um resumo sobre a história do município do Crato, muito bem fundamentada por um trabalho de pesquisa e extensa bibliografia, que publicaremos na terceira parte. Por enquanto, deliciemo-nos com a primeira parte desse resumo primoroso que a Ana Paula nos brinda:
“O Cariri foi alcançado pelos povoadores do chamado ciclo da civilização do couro. Vieram da Bahia, de Sergipe e Pernambuco pelo mesmo caminho palmilhado outrora pelos selvícolas na pré-história – O S. Francisco. Muitos alcançaram o riacho dos Porcos, daí se bifurcando para o Jaguaribe, ou penetrando nos terrenos férteis ao sopé do Araripe. Alguns chegaram pelo caminho do Pageú, de Pernambuco, ou do Riacho da Brígida, afluente do mais brasileiro dos rios. No lado pernambucano tínhamos povoação, fundada por capuchinhos, em 1705, tendo apenas a Serra do Araripe de permeio, a separá-la do lado de cá, no local onde se fundou a Missão do Miranda que, depois, quando vila, recebeu o nome de Crato”. (FILHO FIGUEIREDO, J de. História do Cariri – Volume I, pág. 18).

Falar sobre a história do município do Crato é mergulhar na história do Cariri Cearense. Crato no século XIX e meados do XX foi a vila e, posteriormente cidade mais importante nos vários aspectos, seja no social, no econômico ou no político do Sul do Ceará. O Cariri a principio habitado pelos denominados índios CARIRIS, os quais possivelmente vindos da região Amazônica fora pouco a pouco habitado por homens brancos oriundos primordialmente das capitanias vizinhas. Assim os índios Cariris foram levados a outras paragens distantes do Vale. Segundo Irineu Pinheiro:

“Por decisão do governador de Pernambuco, José Cesar de Meneses, foram os índios do Crato despojados em 1779, injustamente, das terras que lhes doaram, no ano de 1743, o capitão-mor Domingos Álvares de Matos e sua mulher dona Maria Ferreira da Silva, filha do capitão Antônio Mendes Lobato, morador de Penedo, Alagoas”. (PINHEIRO, Irineu. O Cariri. pág. 9).

No entanto, é fundamental ressaltarmos que a Vila Real do Crato se desenvolveu sobre o aldeamento do frei capuchinho, originário da Itália, Carlos Maria de Ferrara. Ao chegar às terras aonde viria a ser a cidade do Crato, frei Carlos encontrou muitos índios, sobretudo os denominados Cariris. Começou então o frade a catequizá-los e ergueu juntamente com os mesmos um templo dedicado a Virgem da Penha. Ao redor da igreja havia as habitações dos índios, o chamado aldeamento, o qual se localizava de início no chamado Quadro da Matriz e, na atualidade Praça da Sé. A título de esclarecimento é de fundamental relevância explicarmos a denominação de Missão do Miranda, para isso deixemos o memorialista José de Figueiredo Filho esclarecer:

“Nasceu, portanto, o Crato da Missão do Miranda, fundada primitivamente em local mais afastado que conserva ainda o nome de sítio Miranda, embora já envolvido quase totalmente pela cidade (Hoje bairro do Mirandão – grifo nosso). De onde lhe veio à denominação? Alguém já afirmou que procedesse de antigo cacique que foi batizado com âquele sobrenome. Isso seria impossível. O indígena, ou recebia ao ingressar no seio da igreja, nome próprio de santo, ou traduzia seu nome primitivo para o português, como sucedeu com o Diabo Grande,Camarão ou Algodão. Jamais lhe viria mudança para sobrenome e notadamente, mais pendido para o castelhano do que para o lusitano, como sucedia com MIRANDA. Até agora, diante dos fatos, podemos ligá-lo ao sesmeiro Gil de Miranda,que aparece nas primeiras datas do Cariri, embora a região pelos documentos, fôsse entregue primitivamente a Ariosa e aos Lobatos”. (FILHO FIGUEIREDO, J. de. História do Cariri – Volume I, pág. 33).

A principio a Missão do Miranda pertencia à freguesia do Icó, depois passou a pertencer à freguesia do Cariri Novo de Nossa Senhora da Luz (posteriormente São José dos Cariris Novos e, logo em seguida Missão Velha). A freguesia do Miranda foi criada em 1762 e em 1768 foi oficializado sua configuração territorial. Não obstante, com o declínio das vilas do Icó e de Aracati e, ascensão econômica de Fortaleza, tendo como fator de destaque a criação de estradas de ferro que dificultavam na época a principal economia das duas vilas citadas que eram feitas por carros de bois, Crato passou a ter prosperidade significativa em vários aspectos.

Era o Vale do Cariri de uma beleza exuberante! Desta maneira o encontraram os primeiros colonizadores, os quais migraram para essa povoação no intuito de criar gado, atividade posteriormente dividida com a agricultura, sobretudo, o cultivo de feijão, arroz, milho, mandioca e, tempos depois cana de açúcar. Tal foi o seu crescimento que se pensou por volta de 1839 em se criar a Província do Cariri Novo com sede em Crato. Assim escreveu Irineu Pinheiro:
“A ideia da criação de uma nova província na comarca do Crato é uma ideia antiga, já discutida no senado, e que hoje começa a reviver e a tomar algum vulto. Os habitantes daquele lugar, desejando ver realizado esse projeto de um dos seus patrícios, o Sr. Senador Alencar, acabam de criar o jornal O Araripe, destinado exclusivamente a sustentar essa causa justa, que nos propomos defender com os nossos fracos e pequenos recursos. Embora à primeira vista essas ideias de divisões de províncias pareçam questões de interesse local, é impossível contestar a vantagem que uma boa divisão administrativa resulta para o governo de um país, e sobretudo o acréscimo de rendas, o aumento da produção que traz criação de uma província que se acha em condições tão favoráveis como a que se projeta na comarca do Crato. Uma das cousas que mais receia o governo, quando se trata de criar uma nova província, é o aumento de despesas provenientes da sua organização administrativa, mas este temor não pode existir a respeito do Crato, cuja renda atual, junta à dos municípios que devem ser anexos, é superior à de muitas províncias já criadas”. (PINHEIRO, Irineu. O Cariri. pág. 30).

Contudo, segundo o naturalista Gadner no seu livro de viagem em 1838 era o Crato uma cidade pequena e assaz pobre, tendo cerca de um terço do tamanho do Icó. Inda assim lhe eram inferiores Missão Velha, Barbalha, Jardim e Santana. Fora também marcado pelas epidemias do cólera, da varíola e da bexiga, as quais disseminaram parcela expressiva da população, sendo validas pelos boticários, assim chamados os donos das boticas (farmácias), os quais faziam papel de médicos. Vale salientar que aos fins de tarde era as boticas locais de sociabilidade, onde se falava de tudo, sobretudo de política. No entanto, o seu crescimento e desenvolvimento econômico e cultural se deve sobremaneira a imigração de elementos de outras partes do Ceará e de algumas províncias vizinhas, os quais passaram a dar nova fisionomia ao Cariri, trazendo além de novos pensamentos, investimentos principalmente na agricultura e, de modo especial no cultivo da cana de açúcar e fabricação de rapadura, fatores que impulsionaram a economia.

Assim escreveu Della Cava:

“O açúcar e o engenho foram os principais responsáveis na formação da hierarquia social do Vale. No seu ápice, achavam-se os fazendeiros da cana que gozavam de indiscutível preeminência política e social, até o fim do século XIX. Muito abaixo deles, com a única exceção dos profissionais liberais intermediários, situava-se uma força de trabalho subserviente. Diferentemente, porém, da costa pernambucana, voltada para a exportação de açúcar, a força de trabalho do Vale não era constituída de escravos. Os braços da região empregados no campo eram nominalmente livres, sendo que, do ponto de vista racial, eram quase sempre mestiços e não de origem africana. Viviam, contudo, no limite mais baixo da subsistência e eram, de fato, permanentemente ligados à terra dos produtores de açúcar, como bem indica a palavra usada para esses trabalhadores, agregados.” (CAVA, Ralph Della. Milagre em Joaseiro. pág. 31,32).

A criação do Seminário São José, construído no local chamado na época Alto do Grangeiro, cujo terreno fora doado pelo cel. Antonio Luiz Alves Pequeno em 1861 e inaugurado em 1864 sob a direção do bispo D. Luís Antonio dos Santos e, aberto em 1875 trouxe benefícios excepcionais para a cidade no aspecto educacional. Além, da fundação de uma Casa de Caridade pelo padre Antonio Maria Ibiapina no ano de 1869 que amparou diversas órfãs e instrui-as nas letras.
Mas, não era só a economia e o comércio que prosperavam. No que tange as moradias estas passaram de simples choupanas a luxuosos casarões, entre os tantos erguidos tem-se os dos coronéis Antonio Luiz Alves Pequeno, Antonio Joaquim de Carvalho, Joaquim Gomes de Matos, padre João Marrocos Teles. Com isso modificaram-se os costumes naquele lugarejo. Veio então a iluminação pública em 1903, a luz elétrica em 1920, a construção do mercado público, a abertura de estradas carroçais, a inauguração de um telegrafo, a construção da estrada de ferro (Crato X Baturité) e, sua inauguração em 1926, entre tantas outras obras que demonstravam a opulência daquela importante cidade.

Ocorreram movimentos de expressão no Crato, tais como os de 1817, onde se buscava a emancipação política do Brasil, a qual só viria de fato em 1822. Participaram desse episódio da história do Crato, do Cariri vários membros da família Alencar, os quais foram perseguidos pelos chefes conservadores Pereira Filgueiras, Leandro Bezerra Monteiro e João Vitoriano Maciel. Os Alencares tinham ideais liberais graças à influência ou convivência com o clero, particularmente o a Igreja de Olinda e Recife. A partir de 1823/ 1824 os liberais representados primordialmente pela família Alencar passaram a desejar o fim da monarquia. Nesse período entraram em confronto com o cel. Joaquim Pinto Madeira, chefe legalista que lutava em favor do imperador D. Pedro, ou seja, queria restituir a ordem anterior, era totalmente avesso a república. No contexto social desses movimentos destaca-se José Martiniano de Alencar, Bárbara Pereira de Alencar, Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, Vários padres, entre outros. Sobre a Revolução de 1817 J. de Figueiredo Filho destaca: “… Foi a ante-véspera da vitória de 1822 e a maior contribuição de sangue e heroísmo que o brasileiro deu, desde os primeiros albores da idéia de emancipação política, em terra de Santa Cruz. Também foi rebelião de amplitude maior,não circunscrita à única capitania ou província”. (FILHO FIGUEIREDO, J. de. História do Cariri – Volume II, pág. 62).

Fim da Parte 1/3 – Continua…

Ana Paula M. Martins
Graduada em História
Especalizanda em História do Brasil/ URCA

URL curta: http://www.crato.org/chapadadoararipe/?p=68329

Postado por em 6 nov 2011, 11:38. Arquivado em Artigos. Você pode seguir qualquer comentário deste post através de RSS 2.0. Você pode comentar ou rastrear esta entrada

1 Comentário para “Resumo sobre a História do município do Crato – Parte 1/3 – Por: Ana Paula Monteiro – Especalizanda em História do Brasil/ URCA”

  1. Obrigada!!!
    vlw mesmo.. se não fosse esse site eu não ninha feito o DV de casa…
    Obg

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HOMENAGEM DA SEMANA


CORREINHA

O Chapada do Araripe presta homenagens a um dos maiores mestres da cultura popular que faleceu em Crato recentemente, Francisco Correia de Lima, o Correinha, artista de várias linguagens atuante no município do Crato. Mestre Correinha nasceu no município de farias Brito no dia 14 de fevereiro de 1940, mas era um amante inveterado do Crato, município ao qual costumava fazer referências em suas canções. Talvez por não ter tido seu nome incluído nas listas anuais de mestres reconhecidos pelo Governo do Estado desde 2004, mestre Correinha tenha sido sepultado em meio a homenagens comoventes de moradores do município, mas, como ressaltaram amigos e familiares, sem o devido destaque por parte do Poder Público. Situação destacada durante a sua missa de corpo presente, enriquecida pelo acordeon de Hugo Linard, com quem Correinha gravou recentemente, 15 canções que agora constituem o último registro de sua obra. Segundo o próprio Hugo Linard, as canções registradas nesse último trabalho de Correinha em estúdio são, na maioria, inéditas. ´Ele gravou também ´Belezas do Crato´, mas as outras não tinham registro´, diz, citando canções como ´Coisas do meu sertão´, ´Exaltação a Barbalha´, ´Crato de Açúcar´ e ´Meu Cariri´ e ´Balanceio´. ´Fazia tempo que a gente tava cutucando ele, dizendo que ele tinha que gravar de novo. Ele fez dois compactos e outros discos, no tempo do vinil, além de vários cordéis´. Hugo Linard chama atenção para aspectos peculiares da trajetória de Correinha. ´Ele mantinha um bar aqui no Crato e ainda trabalhava como agente carcerário. Era tão querido que os presos pediram à família por ocasião do seu velório, para deixar um pouco o corpo dele lá na cadeia, para eles o homenagearem´.
Dalwton Moura

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AUXÍLIO À LISTA

Dicas de Filmes



Por trás de todo o grande homem se esconde um professor, e isso era certamente verdade para Bruce Lee que aclamava como seu mentor um expert em artes marciais chamado Ip Man. Um gênio do Wushu (ou a escola de artes marciais da China), Ip Man cresceu numa China recentemente despedaçada pelo ódio racial, radicalismo nacionalista e pela Guerra. Ele ressurgiu como uma Fênix das Cinzas graças à suas participações em lutas contra vários mestres Wushu e lutadores de kung-fu - finalmente treinando icones de artes marciais como Bruce Lee. Esta cinebiografia do diretor Wilson Yip mostra a história da vida de Ip.

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