Nobel Herta Müller fala do terror das ditaduras e critica Günter Grass

Tortura, perseguição, medo e traição entranham vida e obra de Herta Müller.

HertamullerGanhadora do Nobel de Literatura em 2009, a escritora romena-alemã de 59 anos volta a acertar as contas com seu passado atormentado em “Sempre a Mesma Neve e Sempre o Mesmo Tio”, que acaba de sair no Brasil pelo Biblioteca Azul, novo selo da Globo Livros (tradução de Claudia Abeling, R$ 34,90, 248 págs.).

O lançamento reúne discursos, artigos e ensaios da autora, que falou com exclusividade à Folha –por e-mail e em alemão, exigências dela.

Livro e entrevista revelam que independe a ordem do substantivo: Herta Müller é igualmente uma brava mulher e uma mulher brava.

Brava mulher por resistir à tirania e narrar tudo, reviver pela literatura. Em “Sempre a Mesma Neve…”, volta a descrever como o regime do ditador romeno Nicolae Ceausescu (1918-1989) a acossou desde que ela se recusou a colaborar com a Securitate, polícia secreta do país.

Declarada “inimiga do Estado”, a escritora se mudaria em 1987 para a Alemanha.

No ensaio “Cristina e Seu Simulacro”, vasto painel do terrorismo do regime, Herta conta ter descoberto que até sua melhor amiga dos tempos de Romênia, que lhe deu ombro durante a perseguição, virara espiã do regime (e a espionou na Alemanha).

Em “Mas Sempre Ocultou”, relata o espanto ao descobrir que o poeta e amigo Oskar Pastior, colaborador em seu último romance, foi ele também um espião. Na entrevista, explica por que o perdoa.

Herta Müller, cujo pai lutou do lado nazista na Segunda Guerra, é também uma mulher brava. Atacou o colega Nobel Günter Grass –por dizer, num poema, que Israel ameaça a paz mundial– e os regimes de China e Irã.

Deu algumas respostas mal-humoradas. E deixou três perguntas sem resposta.

Por que a sra. decidiu reunir estes textos num livro? O que confere unidade a eles?
Herta Müller - Este volume não é a primeira coletânea de ensaios e palestras. Eu tentei mais uma vez explicar de onde meus livros surgem, por que escrevo. E muitas coisas têm justamente a ver com minha vida, o convívio com a ditadura romena, a experiência da perseguição política e do medo –um dia a dia que não se pode nem imaginar nas democracias ocidentais.

O livro mescla discursos, palestras e artigos. O que diferencia o texto escrito para ser falado de um outro que não tem esse fim?
Uma palestra já é um “texto escrito” que foi lido em voz alta em alguma ocasião. Eu nunca falei em público sem anotações. Não me julgo capaz para isso.

Seu amigo Oskar Pastior é figura central deste livro e do seu último romance. Apesar da descoberta de que ele colaborou com a Securitate, no texto “Mas sempre ocultou” a sra. o perdoa e escreve: “Mas eu o acolheria em meus braços todas as vezes”. Por que? Teria o convocado a colaborar em “Tudo o que Tenho Levo Comigo” se soubesse que ele atuou como espião do regime romeno?
Esta é uma pergunta que exige uma resposta detalhada. Espero que vocês tenham paciência.

Sem Oskar Pastior eu não teria escrito meu último romance ["Tudo o que Tenho Levo Comigo"]. O livro conta a história de como os alemães foram deportados da Romênia para os campos de trabalhos forçados da ex-União Soviética em janeiro de 1945. Para Stálin, todos os alemães foram cúmplices de Hilter. E [de fato], dos alemães que estavam na Romênia, muitos
combateram como voluntários no exército alemão, inclusive em janeiro de 1945, quando os russos ocuparam a Romênia e começaram a deportar os alemães.

Uma vez que os homens ainda estavam em plena guerra –lembrando que a guerra só acabou em maio de 1945– deportaram-se mulheres entre 17 e 45 anos, além dos homens que eram jovens ou velhos demais para a guerra. Foi o caso da minha mãe e de Oskar Pastior, então com 17 anos de idade.

Eu sempre quis escrever um livro sobre essa deportação, que perdurou por cinco anos, sobre a desgraça nos campos, sobre a quantidade enorme de mortos e o silêncio que se seguiu.

Pois minha mãe só contava esses episódios de maneira muito vaga.

Oskar Pastior, com sua memória, me deu inúmeros detalhes, e nos anos de preparação de “Tudo o que Tenho Levo Comigo” nós nos tornamos bastante amigos. Depois da sua morte, quando descobriram que ele foi espião da polícia secreta romena de 1961 até a fuga do país em 1968, eu fiquei muito chocada.

Mas hoje eu sei pelas atas que Pastior foi chantageado. Depois de retornar do campo de concentração russo, ele escreveu sete poemas que foram considerados “difamação antisoviética”.

E nos anos 60 ainda eram as leis estalinistas que valiam na Romênia. Ele teria recebido uma pena de 20 anos ou mesmo perpétua por essas acusações. Impuseram-lhe a escolha: prisão ou espionagem. E foi claro que ele optou pela segunda alternativa.

Dos registros secretos, eu vim a saber que ele escreveu cinco relatórios em dez anos, todos eles banais e sem importância. Portanto foi por meio da passividade que ele conseguiu se safar da situação e, no fim, não causou nenhum dano a ninguém.

Hoje eu agradeço o fato de ele não ter me contado nada sobre a atividade de espião. Sem a oportunidade de ler as atas –somente após a sua morte elas se tornaram públicas–, eu não teria acreditado que ele só entregara relatórios sem conteúdo e teria rompido a amizade –sem nenhuma razão, como vejo hoje. E ainda não teria tido a chance de pedir-lhe desculpas, pois ele morreu antes de que se pudesse ler os relatórios que escreveu.

A sra. menciona que a Alemanha Ocidental pagou à Romênia para receber romenos de etnia alemã. A sra. também foi “vendida”? (caso sim, por quanto?)
Havia de fato um acordo entre a Alemanha Ocidental e a Romênia sobre [o que se costuma chamar de] “reagrupamento familiar” –12 mil alemães puderam deixar a Romênia a cada ano, e a Alemanha pagou alguns milhares de marcos por cada pessoa. Mas eu não era um caso normal, eu deixei o país como “inimiga do Estado”. Desde que fui ameaçada de morte, eu estava em uma “lista prioritária” da Anistia Internacional e o então ministro do Exterior alemão, [Hans-Dietrich] Genscher, intercedeu pela minha saída do país. Quanto foi pago por mim, não sei.

Em mais de uma passagem do livro a sra. trata do suicídio, chegando a escrever que “talvez o suicídio seja uma procura total pela felicidade”. Concorda com Camus que o suicídio é “o único problema filosófico verdadeiro”? Como resistir à tentação de tirar a própria vida?
Para mim, pensar em suicídio não era um problema filosófico. Eu pensava nisso porque estava em uma situação sem saída. Quando me recusara a cooperar com a polícia secreta Securitate, ou seja, quando me recusei a ser espiã, perdi meu emprego, fui chamada várias vezes a interrogatórios e recebi ameaças de morte. Eu não sabia o que fazer. Quando eu estava com a corda no pescoço, pensei comigo: se me mato agora, eu faço o trabalho da Securitate; já que querem me matar, que façam então eles mesmos o serviço.

A obra da sra. é definida pelas marcas da opressão de sistemas ditatoriais. Há algum regime atual que tenha paralelos com o nazismo e o stalinismo? Há risco de aquelas experiencias se repetirem?
Dê uma olhada no que se passa agora no mundo. O que está acontecendo na China, onde pessoas que não concordam desaparecem em prisões secretas ou são condenadas a longas penas de prisão, como o Prêmio Nobel da Paz Liu Xiaobo e sua mulher. Para isso, o governo chinês não precisa nem de uma ordem judicial como forma de legitimação. E o que acontece na ditadura religiosa no Irã? Existe hoje uma religião patriarcal totalitária, que ameaça o mundo com a extinção de todo um país com a destruição de Israel.

A sra escreve que a Romênia, “o país do fracasso universal”, passou da tirania de Ceausescu a uma democracia corrupta e dominada pela criminalidade. O que falta para o país se tornar viável?
Na Romênia –assim como na maioria das sociedades pós-ditatoriais– os funcionários do antigo regime se arranjaram bem na nova ordem. Hoje eles são empresários e políticos e, em vez da repressão, o que domina o país agora é a corrupção. Além disso, há o desinteresse da população sobre o esclarecimento da ditadura. Diferente do que acontece na Alemanha, na Romênia quase ninguém quer ler seus arquivos do serviço secreto, para saber quem o traiu ou espionou. Talvez gente demais tenha colaborado com o serviço secreto. A falta de interesse no passado impediu um novo começo com políticos livres de acusações.

A sra. escreve que a literatura não pode fazer nada contra as ditaduras, apesar de dizer que, a posteriori, ela pode mostrar tudo o que aconteceu. Acredita que a literatura ainda tem o poder de influenciar as pessoas?
Acho que o que se aprende com livros é um processo individual. Eu aprendi muito com os livros. Mas o que eles fazem com cada uma das pessoas é coisa que não se pode avaliar.

Kafka, Celan, Canetti são autores que escrevem em alemão, mas não nasceram na Alemanha, e compartilham experiências de vida com a sra. Esses autores, assim como Kertész e Cioran, são comumente mencionados quando se fala da sua obra. Com a obra de qual deles a sra. mais se identifica?
Eu não me identifico com nenhum outro autor. Há às vezes algumas semelhanças biográficas e interesses em comum. Mas experiências de vida são sempre diferentes. Desses autores, o mais próximo de mim seria Imre Kertész.

Como a sra. viu a recente polêmica em torno do poema em que Günter Grass critica Israel? Concorda com ele que Israel é uma ameaça à paz mundial?
Grass distorce a realidade. O Irã está ameaçando Israel com a aniquilação, e não o contrário. Além disso, chamar o texto dele de poema é um rótulo embusteiro. Grass perdeu para mim a sua credibilidade moral há muito tempo, porque ele ocultou durante décadas sua filiação à [organização nazista] SS.

Como a sra analisa o comentário do Nobel V.S. Naipaul de que textos escritos por mulheres são reconhecíveis ao primeiro parágrafo, que mulheres escrevem com sentimentalismo e não são iguais a ele?
Ah, isso não me interessa.

Existe uma crítica recorrente, vinda principalmente dos EUA, de que o Prêmio Nobel é eurocêntrico e despreza a literatura de outros continentes. A sra. concorda?
Sem resposta.

A sra. conhece algo do Brasil e da literatura brasileira? Tem planos e/ou convites para vir ao Brasil?
Sem resposta.

Em que a sra. trabalha no momento? Quais os próximos livros que vai publicar?
Sem resposta.

Seu primeiro livro foi publicado há 30 anos. Como a sra. vê o desenvolvimento de sua literatura?
São os leitores que deveriam avaliar o “desenvolvimento” da minha literatura.

FABIO VICTOR
MARCIO AQUILES
DE SÃO PAULO
 
Folha.com

Literatura marginal ganha espaço e conquista leitores, principalmente jovens

Brasília – Como um retrato autêntico da vida nas periferias brasileiras, a literatura marginal vem ganhando espaço e conquistando leitores, principalmente os jovens.

“A literatura que eu escrevo vem de ruas que os anjos não frequentam, de pessoas que não têm voz”, diz o poeta Sérgio Vaz, referindo-se à expressão literária e estética da periferia. O tema foi destaque de um ciclo de debates realizado hoje (15), na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, que reuniu escritores como Vaz, Ferréz e o rapper GOG.  

Autor de coletâneas de poemas que tratam do cotidiano da periferia de São Paulo, Vaz conta que se engajou nesse tipo de literatura por ser revoltado com a vida. Para ele, os livros sobre a realidade das “quebradas” mostram como as pessoas da periferia estão se tornando protagonistas de sua própria história. “Antigamente, as pessoas escreviam sobre a gente, eramos coadjuvantes. Hoje, somos nós que contamos a nossa história. A literatura é uma arte como outra qualquer e tem compromisso social.”

Há mais de dez anos, Vaz criou o Cooperifa, um projeto social que busca disseminar a leitura entre as pessoas de comunidades de São Paulo. Durante o ano, são realizados saraus, oficinas e outras atividades culturais. Atualmente, 150 pessoas estão engajadas no projeto. “Começamos a dar uma função social para a literatura por meio da oralidade. Nós fazemos a gentileza de recitar, e a pessoa faz a gentileza de ouvir. É uma ferramenta para chegar ao livro.”

A professora Aline Evangelista Martins acompanhou a evolução do sarau da Cooperifa, em São Paulo e o modo como os livros que tratam da realidade do gueto vem impactando as comunidades. “O grande mérito no trabalho deles [de escritores de literatura marginal] é a democratização da leitura, da imagem do leitor, da quebra de estereótipo. [Eles] conseguem ampliar bastante as possibilidades e formar leitores onde muitas vezes a gente não consegue.”

A literatura marginal, que tem forte ligação com a cultura do rap e do hip hop, está atraindo cada vez mais os jovens. O estudante brasiliense Fernando Borges, de 16 anos, viu na literatura uma forma de melhorar o comportamento e mudar de vida. “Eu bagunçava muito na escola, por isso, a professora me passou alguns contos do Ferréz [escritor de literatura marginal], e eu me inspirei. Tomei gosto pela leitura, porque, antigamente, eu não gostava de ler.”

Morador da Cidade Estrutural, no Distrito Federal, Fernando tornou-se escritor e deve lançar um livro com textos, poesias e letras de música ainda neste ano. “Vai ser voltado para a literatura marginal, para o cotidiano da periferia. Quero que as pessoas leiam mais a literatura periférica”, disse.

Para o rapper e escritor Genival Oliveira Gonçalves, conhecido como GOG, a literatura periférica põe o jovem em papel de destaque.

“Mostra que ele [o jovem], muitas vezes dá motivo para que o sistema o enquadre, mas também que ele tem possibilidade de escrever a história. A sabedoria de rua é o nosso grito de guerra, a nossa visão.”

Repórter da Agência Brasil

Escritor Jorge Amado será homenageado no III Encontro Formando Leitores, em Juazeiro, nesta Sexta-Feira

A SME – Secretaria Municipal de Educação – realizará dias 17 e 18, terça e quarta-feira da próxima semana, o III Encontro Formando Leitores. “O evento acontecerá pelo terceiro ano consecutivo e é alusivo ao Dia do Livro Infantil que transcorre em 18 de abril”, informa a Secretária de Educação, Sônia Luz Monteiro.

O tema do III Encontro Formando Leitores este ano será “A presença de Jorge, o Amado, nas Bibliotecas” em reconhecimento ao escritor baiano Jorge Amado. A bibliotecária e organizadora do evento, Jorgivânia Lopes explica que este ano haverá uma campanha de doação de livros para implantação de uma biblioteca no Instituto Reviver do Cariri, importante ONG que trabalha na recuperação de pessoas com dependência química em Juazeiro.

O Prefeito Dr. Santana comentando o III Encontro Formando Leitores, disse que “o evento é mais uma comprovação do compromisso de se fazer uma educação diferente, voltada para provocação da participação comunitária, estimulando a leitura nas crianças que certamente serão adultos mais cônscios de seus direitos e deveres”. Ele também parabenizou toda equipe da Secretaria de Educação envolvida no processo de organização.

O objetivo do programa é intensificar a leitura em todos os aspectos compreendendo a importância das bibliotecas escolares de modo a contribuir para o conhecimento, informação, lazer e estimular alunos e educadores a ampliarem suas possibilidades de leitura. A bibliotecária Jorgivânia acrescenta que “a ampliação de leitura dos sujeitos envolvidos acontece através da interpretação, recriação e adaptação de todos ao espaço escolar”.

No dia 17 haverá às 08h00 na Praça Juvêncio Santana, ao lado da SME a Feira Literária das Bibliotecas Escolares com apresentações e estandes das escolas Antonio Ferreira de Melo, Pelúsio Correia de Macedo, Felipe Nery, Monsenhor Juviniano Barreto, Prefeito José Monteiro e Dom Vicente Matos.

No dia 18, no Memorial Padre Cícero, haverá um Café Literário e a mesa redonda com o tema do evento e participações dos professores Jonathas Carvalho, Lindaura Torres e Cecília Ribeiro.

Beto Fernandes – Colaborador do Blog do Crato

Patativa do Assaré-Autobiografia e Poesia

PATATIVA DO ASSARÉ

(1909-2002)

Patativa_do_Assare
 

Autobiografia de Patativa do Assaré

 

Eu, Antônio Gonçalves da Silva, filho de Pedro Gonçalves da Silva, e de Maria Pereira da Silva, nasci aqui, no Sítio denominado Serra de Santana, que dista três léguas da cidade de Assaré. Meu pai, agricultor muito pobre, era possuidor de uma pequena parte de terra, a qual depois de sua morte, foi dividida entre cinco filhos que ficaram, quatro homens e uma mulher. Eu sou o segundo filho. Quando completei oito anos, fiquei órfão de pai e tive que trabalhar muito, ao lado de meu irmão mais velho, para sustentar os mais novos, pois ficamos em completa pobreza. Com a idade de doze anos, freqüentei uma escola muito atrasada, na qual passei quatro meses, porém sem interromper muito o trabalho de agricultor. Saí da escola lendo o segundo livro de Felisberto de Carvalho e daquele tempo para cá não freqüentei mais escola nenhuma, porém sempre lidando com as letras, quando dispunha de tempo para este fim. Desde muito criança que sou apaixonado pela poesia, onde alguém lia versos, eu tinha que demorar para ouvi-los. De treze a quatorze anos comecei a fazer versinhos que serviam de graça para os serranos, pois o sentido de tais versos era o seguinte: Brincadeiras de noite de São João, testamento do Juda, ataque aos preguiçosos, que deixavam o mato estragar os plantios das roças, etc. Com 16 anos de idade, comprei uma viola e comecei a cantar de improviso, pois naquele tempo eu já improvisava, glosando os motes que os interessados me apresentavam. Nunca quis fazer profissão de minha musa, sempre tenho cantado, glosado e recitado, quando alguém me convida para este fim.

 

Quando eu estava nos 20 anos de idade, o nosso parente José Alexandre Montoril, que mora no estado do Pará, veio visitar o Assaré, que é seu torrão natal, e ouvindo falar de meus versos, veio à nossa casa e pediu à minha mãe, para que ela deixasse eu ir com ele ao Pará, prometendo custear todas as despesas. Minha mãe, embora muito chorosa, confiou-me ao seu primo, o qual fez o que prometeu, tratando-me como se trata um próprio filho. Chegando ao Pará, aquele parente apresentou-me a José Carvalho, filho de Crato, que era tabelião do 1o. Cartório de Belém. Naquele tempo, José Carvalho estava trabalhando na publicação de seu livro “O matuto Cearense e o Caboclo do Pará”, o qual tem um capítulo referente a minha pessoa e o motivo da viagem ao Pará. Passei naquele estado apenas cinco meses, durante os quais não fiz outra coisa, senão cantar ao som da viola com os cantadores que lá encontrei. De volta do Ceará, José Carvalho deu-me uma carta de recomendação, para ser entregue à Dra. Henriqueta Galeno, que recebendo a carta, acolheu-me com muita atenção em seu Salão, onde cantei os motes que me deram.

 

Quando cheguei na Serra de Santana, continuei na mesma vida de pobre agricultor; depois casei-me com uma parenta e sou hoje pai de uma numerosa família, para quem trabalho na pequena parte de terra que herdei de meu pai. Não tenho tendência política, sou apenas revoltado contra as injustiças que venho notando desde que tomei algum conhecimento das coisas, provenientes talvez da política falsa, que continua fora do programa da verdadeira democracia. Nasci a 5 de março de 1909. Perdi a vista direita, no período da dentição, em conseqüência da moléstia vulgarmente conhecida por Dor-d’olhos. Desde que comecei a trabalhar na agricultura, até hoje, nunca passei um ano sem botar a minha roçazinha, só não plantei roça, no ano em que fui ao Pará. ANTÔNIO GONÇALVES DA SILVA, Patativa do Assaré.

 

 

Patativa, dono de uma memória extraordinária, sabia de cor todos os seus mais de mil poemas. Ele não burilava seus versos como os poetas de bancada fazem; seus versos e rimas brotavam em sua cabeça como as plantas brotavam em seu roçado. O poema nascia pron­to e exato, redondo, sem precisar de emendas.   Cláudio Portella

*  *  *

“Patativa não é pássaro por acaso. Talvez nunca tenha havido uma simbiose tão forte entre pessoa e epíteto: é como se, magicamente, ele abdicasse da sua condição humana para gorjear poesia. Canto que traz, de modo contundente, a complexidade das questões filosóficas da dor, da finitude, do amor e da cidadania”.  Gilmar de Carvalho

 

 

HERANÇA

 

Querida esposa que ouvindo está

Roubou-lhe o tempo a jovial beleza,

Mas tem o dote da maior nobreza

Sua bondade não se acabará.

 

Morrerei breve, porém Deus lhe dá

Força e coragem com a natureza

De no semblante não mostrar tristeza

Quando sozinha for viver por cá.

 

Não tenho terra, gado, nem dinheiro,

Só tenho o galo dono do terreiro

Que a madrugada nunca ele perdeu

.

Conserva esposa, minha pobre herança,

Seja bem calma, paciente e mansa,

Você não chore, que este galo é seu.

 

 

AMANHÃ

 

Amanhã, ilusão doce e fagueira,

Linda rosa molhada pelo orvalho:

Amanhã, findarei o meu trabalho,

Amanhã, muito cedo, irei à feira.

 

Desta forma, na vida passageira,

Como aquele que vive do baralho,

Um espera a melhora no agasalho

E outro, a cura feliz de uma cegueira.

 

Com o belo amanhã que ilude a gente,

Cada qual anda alegre e sorridente,

Como quem vai atrás de um talismã.

 

Com o peito repleto de esperança,

Porém, nunca nós temos a lembrança

De que a morte também chega amanhã.  

 

 

MINHA VIOLA

 

Minha viola querida,

Certa vez, na minha vida,

De alma triste e dolorida

Resolvi te abandonar.

Porém, sem as notas belas

De tuas cordas singelas,

Vi meu fardo de mazelas

Cada vez mais aumentar.

 

Vaguei sem achar encosto,

Correu-me o pranto no rosto,

O pesadelo, o desgosto,

E outros martírios sem fim

Me faziam, com surpresa,

Ingratidão, aspereza,

E o fantasma da tristeza

Chorava junto de mim.

 

Voltei desapercebido,

Sem ilusão, sem sentido,

Humilhado e arrependido,

Para te pedir perdão,

Pois tu és a jóia santa

Que me prende, que me encanta

E aplaca a dor que quebranta

O trovador do sertão.

 

Sei que, com tua harmonia,

Não componho a fantasia

Da profunda poesia

Do poeta literato,

Porém, o verso na mente

Me brota constantemente,

Como as águas da nascente

Do pé da serra do Crato.

 

Viola, minha viola,

Minha verdadeira escola,

Que me ensina e me consola,

Neste mundo de meu Deus.

Se és a estrela do meu norte,

E o prazer da minha sorte,

Na hora da minha morte,

Como será nosso adeus?

 

Meu predileto instrumento,

Será grande o sofrimento,

Quando chegar o momento

De tudo se esvaicer,

Inspiração, verso e rima.

Irei viver lá em cima,

Tu ficas com tua prima,

Cá na terra, a padecer.

 

Porém, se na eternidade,

A gente tem liberdade

De também sentir saudade,

Será grande a minha dor,

Por saber que, nesta vida,

Minha viola querida

Há de passar constrangida

Às mãos de outro cantor.

 

 

Poemas extraídos de PATATIVA DE ASSARÉ, seleção Cláudio Portella.  São Paulo: Global Editora, 2006.  384 p.  (Melhores Poemas) ISSN 85-260-1119-7  Interessados na obra entra na página da editora: www.globaleditora.com.br   – e-mail: global@globaleditora.com.br

Não importa minha cor – Daniel Boris – Jacques

Sou de uma cor diferente
Não permito-me culpa
Não corrego o soberbo orgulho
Apenas me amo
Com defeitos e qualidades
Nossas diferenças…
transcendem nosso ego
Fortalece a corrente
E nos torna iguais

Daniel Boris (Jacques)

A música, sim a música… – Álvaro de Campos

Alvaro de camposA música, sim a música…

Piano banal do outro andar.

A música em todo o caso, a música..

Aquilo que vem buscar o choro imanenre

De toda a criatura humana

Aquilo que vem torturar a calma

Com o desejo duma calma melhor…

A música… Um piano lá em cima

Com alguém que o toca mal.

Mas é música…

 

Ah quantas infâncias tive!

Quantas boas mágoas?,

A música…

Quantas mais boas mágoas!

Sempre a música…

O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.

Mas apesar de tudo é música.

 

Ah, lá conseguiu uma música seguida —

Uma melodia racional —

Racional, meu Deus!

Como se alguma coisa fosse racional!

Que novas paisagens de um piano mal tocado?

A música!… A música…!

Editoras brasileiras investem cada vez mais na literatura chinesa

Brasil tem apostas tanto em nomes contemporâneos como clássicos do país onde se lê de modo crescente os escritores nacionais

 

Mao(2)
Reuters/Reprodução
Mao Tsé-tung na tela de Andy Warhol

A entrada do ano-novo chinês, o Ano do Dragão, na segunda-feira, marca também uma onda incomum de interesse pela língua e literatura chinesa no Brasil.

De olho no crescimento da publicação de livros brasileiros na China, as editoras do País – que já usam o parque gráfico chinês para imprimir seus livros – apostam no intercâmbio como forma de tornar conhecida não só nossa literatura como de entender a dinâmica cultural do país mais populoso do planeta. Afinal, em que outro lugar um escritor como o romântico mineiro Bernardo Guimarães (1825-1884) venderia 500 mil exemplares? Pois foi mesmo na China que seu romance Escrava Isaura, impulsionado pelo sucesso da telenovela, alcançou esse impressionante número de leitores, lembra o professor Antonio José Bezerra de Menezes Jr., do curso de chinês da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências e Humanas da USP.

Os chineses publicados aqui não vendem, claro, nem um décimo do total de Bernardo Guimarães na China, mas o leitor brasileiro já se acostuma com os nomes de Gao Xingjian (Nobel do ano 2000), Ha Jin, Dai Sijie, Ting-Xing Ye, Guo Jingming, Xinran, Su Tong, Ma Jian, Jung Chang, Liao Yiwu e Yu Ha, de quem a Companhia das Letras acaba de lançar Crônica de Um Vendedor de Sangue (leia texto na página ao lado). Yu Ha é o autor de Irmãos e Viver (ambos publicados pela mesma editora). O último deu origem ao filme homônimo de Zhang Yimou, grande prêmio do júri no Festival de Cannes de 1994, mas banido na China.

Yu Ha é um dos escritores daquela que foi denominada Shanghen Wenxue (Literatura da Ferida). O professor Bezerra de Menezes explica que essa literatura surgiu no final da década de 1980 e foi assim chamada pelas duras críticas ao período da Revolução Cultural (1966-1976) empreendida por Mao Tsé-tung. Marcado por reações violentas da Guarda Vermelha contra professores, artistas e intelectuais não alinhados com a doutrina maoista, esse período não foi, porém, o único violento da história chinesa. Yu Ha, em Viver, mostra um ex-proprietário de terras tentando sobreviver na China pré-revolucionária e segue contando, em Crônica de Um Vendedor de Sangue, como viviam os chineses pobres no final dos anos 1950, elegendo como exemplo um operário, Xu Sanguan, que vive da venda do próprio sangue para sustentar sua família.

Histórias como essa explicam por que o regime maoista perseguiu escritores dissidentes e insubmissos à doutrinação. Dai Sijie, nascido há 58 anos, foi um dos autores que passaram pelos campos de reeducação entre 1971 e 1974, durante a Revolução Cultural, contando sua história no autobiográfico Balzac e a Costureirinha Chinesa. Transformado em filme pelo mesmo Dai Sijie, quando trocou a China pela França em 1984 e virou cineasta, o livro não é apenas o relato da amizade entre dois jovens levados a um campo de reeducação na zona rural. Ele serve de fio condutor para entender o fascínio exercido pelos escritores ocidentais sobre os chineses, que durante anos só tinham os livros de Mao nas estantes. Nele, os dois amigos roubam uma mala cheia de textos literários europeus e seduzem uma costureirinha com palavras de Balzac e peças de Mozart.

Desde a Revolução de 1949, os escritores chineses liam clandestinamente autores ocidentais – considerados “burgueses” pelo regime comunista. Isso fez com que Balzac, Flaubert, Joyce e Kafka se tornassem moeda corrente entre os novos escritores chineses. “Os modelos ocidentais foram incorporados à medida que as novas gerações começaram a ter acesso ao cânone da literatura ocidental, mas, num primeiro momento, esses escritores aprenderam literatura fazendo literatura”, observa Bezerra de Menezes. É o caso do Nobel Gao Xingjian, de 72 anos, que chegou a ser enviado para um campo de reeducação nos anos 1970, como Dai Sijie, aproveitando seus conhecimentos de francês para traduzir autores europeus – Beckett incluído – e, depois, para se fixar em Paris, sendo malvisto pelo regime quando escreveu Fugitivos (1989), que faz referência aos protestos da Praça da Paz Celestial em 1989. Dele, a Objetiva lançou A Montanha da Alma, obra híbrida em que Xingjian mistura história pessoal e ficção para relatar sua longa viagem pela China ao ser diagnosticado com câncer pulmonar.

Nos anos 1990, veio finalmente a abertura – ainda que tímida. O Instituto de Estudos da Literatura Estrangeira da Academia Chinesa de Ciências Sociais passou a patrocinar traduções de autores estrangeiros. Em colaboração com a Fundação Gulbenkian de Portugal, eles introduziram Fernando Pessoa na China e, em 1997, Saramago chegou a visitar o país asiático quando seu romance Memorial do Convento foi publicado em chinês. No Brasil, os esforços para que esse intercâmbio cresça são grandes. Em fevereiro, a Unesp e o Instituto Confúcio, num lance extraordinário de tradução, publicam Os Analetos de Confúcio (551 a.C. e 479 a.C.), a mais importante obra da filosofia confuciana, um conjunto de aforismos que norteia até hoje a conduta moral dos chineses. Mas, no período da Revolução Cultural, na tentativa de romper com o passado, lembra Bezerra de Menezes, os chineses não pouparam “nem mesmo Confúcio”.

O Instituto Confúcio, que mantém sua sede no centro de São Paulo, já abriga 800 estudantes de mandarim, segundo o diretor editorial da Unesp, Jézio Hernani Bomfim Gutierre. “Este ano teremos mais 100 alunos”, conta o professor, anunciando como projeto básico do instituto a publicação de poetas clássicos chineses com tradução direta. “Outras editoras já cuidam da produção contemporânea e queremos publicar pelo menos dois títulos ao ano.” Parece pouco, mas o número de profissionais tradutores de chinês ainda é pequeno para obras complexas, que precisam ser apresentadas ao leitor brasileiro com notas explicativas (como em Os Analetos de Confúcio). Em contrapartida, autores brasileiros começar a chegar à China por meio desse convênio entre a Unesp e o Ministério da Cultura chinês. A obra do cientista político baiano Moniz Bandeira é uma das primeiras. O título inaugural é justamente Formação do Império Americano, sobre a vocação dos EUA para dominar o mundo. Os chineses não são bobos.

Biblioteca
Entre os livros chineses publicados no Brasil merecem atenção Balzac e a Costureirinha Chinesa (Objetiva), de Dai Sijie; A Montanha da Alma (Alfaguara), de Gao Xingjian; e, lançados pela Companhia das Letras, Viver, de Yu Huan; Refugo de Guerra, de Ha Jin; e Cisnes Selvagens, de Jung Chang, autora da biografia Mao.

Fonte: Estadão

VIVER DE VERSO, MORRER DE POESIA – POR XICO BIZERRA.

Nesse chão que se recheia de meu verso
enfeitado de sanfona e cantoria
vou tentando fazer minha poesia
muitas vezes sabendo que tergiverso
procurando no eixo do universo
a palavra e a rima independente
pra agradar ao meu povo e a minha gente
num poema mais sucinto e conciso
e assim eu vou vivendo de improviso
na certeza que vou morrer de repente

vou remando com a rima da emoção
dirigindo cada mote da harmonia
velejando nos ares da poesia
flutuando para  qualquer direção
sou o sim em meio à safra de não
sou a tarde enfeitada de poente
me escondendo para nascer novamente
pra levar no rosto um novo sorriso
e assim eu vou vivendo de improviso
na certeza que vou morrer de repente.

 
Blog do Senharol
 
 

Tabacaria – Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Alvaro de campos

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.

0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

FELICIDADE REALISTA

FELICIDADE REALISTA
Por Mário Quintana


FelicidadeA princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote
louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.

Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser
magérrimos, sarados, irresistíveis.

Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema:
queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas.

E quanto ao amor? Ah, o amor.. não basta termos alguém com quem podemos
conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar
pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente
apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes
inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos
sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o
que dá ver tanta televisão.

Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.

Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você
pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um
parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando
se trata de amor-próprio.

Dinheiro é uma benção.
Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo.
Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se
sentir seguro, mas não aprisionado.
E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda,
buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e
um pouco de criatividade.

Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável.
Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato,
amar sem almejar o eterno.

Olhe para o relógio: hora de acordar.
É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza,
instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde
só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas
desta tal competitividade.

Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as
regras, demita-se.
Invente seu próprio jogo.

Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça de que a
felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir
embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não
sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração.
Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade…

Renuncia – José de Moraes Brito

 

Olhando as gotas  da chuva,
Caídas de madrugada
Vejo que, ao brilho do sol
Formam c’roa iluminada.

Vem o afã de apanhar
Esta coroa brilhante
E levar pra coroar
A fronte de minha amante

Mas renuncio ao desejo
Pois é outro o seu fim
O calor veio e levou-a
Deixando um recado em mim

Cada gota que carrego
E aos céus infinitos voa
Se tornará outra vez
Chuva, granizo e garoa.

Com este belo  poema encerramos a postagens do José de Moraes Brito. Nosso parente, amigo e camarada de cultura  e sabedoria  inigualáveis. Nossas homenagens “In Memoria” do Zé de Brito.
 
Blog do Senharol

Mostra SESC Faz Homenagem a Pedro Bandeira

Dentro da programação da 13ª Mostra SESC Cariri de Culturas, o Núcleo de Literatura faz uma homenagem especial ao cantador, cordelista e escritor Pedro Bandeira, que em sua longa trajetória na cultura nordestina publicou mais de mil folhetos, centenas de poemas, dez livros e doze LP´s. 

A homenagem aconteceu no sábado, dia 12, na Feira Cordel, no estacionamento do SESC de Juazeiro do Norte. O espaço é dedicado à divulgação e venda dessa que é uma das formas mais tradicionais de literatura do Nordeste, com apresentações dos músicos João Nicodemos(CE) e Luiz Salgado(MG).

Estão previstos lançamentos de livros, intervenções poético-performáticas, diálogos transculturais, contações de histórias e workshops. O Núcleo também contará com presenças especiais de autores e poetas convidados. As apresentações do Núcleo de Literatura acontecem entre os dias 12 e 16 e estão divididas em dois pólos principais, um em Juazeiro do Norte e outro no Crato.

Pedro Bandeira – Poeta popular, violeiro e repentista

Nasceu no dia 1 de maio de 1938, no município de São José de Piranhas, na Paraíba, já editou mais de mil folhetos, tem 12 livros publicados e oito discos gravados, além de ter sido referência em mais de 100 livros. É formado em Letras e Direito.

Ao lado de Luiz Gonzaga e padre João Câncio, participou do projeto de criação da Missa do Vaqueiro, no distrito de Laje. Faz parte do ciclo do jumento, liderado por padre Antônio Vieira, Patativa do Assaré, Zé Clementino e Luiz Gonzaga. Pedro Bandeira percorreu “meio mundo”. Nos primeiros anos, no lombo do burro Estrela, debaixo do sol quente da Paraíba, ou atravessando o lamaçal dos invernos rigorosos.

Escola Melvin Jones de Crato apresenta o seu IV Sarau Poético


O Governo do Crato, por meio da Secretaria Municipal de Educação, juntamente com a coordenação da Escola de Ensino Infantil e Fundamental Melvin Jones, realizará de 9 a 11 de novembro o seu IV Sarau Poético. Esse ano o tema do evento será “Crato, a flor do semiárido; Bendita sejas ó terra de Alencar”.

De acordo com a Diretora, Sandra Maria Costa, o Sarau 2011 da Escola Melvin Jones, que fica localizada no bairro Muriti, promoverá apresentações artísticas contando a história do Crato, durante 3 dias, nos períodos manhã e tarde. “Toda a Escola está unida – alunos, professores, funcionários, agentes de cidadania, pais e a comunidade em geral – para que essa edição do Sarau seja surpreendente no melhor sentido”, explica Sandra.

Através dos alunos as muitas versões da arte serão demonstradas: Teatro, Musica, Dança, Artesanato, Culinária, entre outros. Vale ressaltar que o Sarau também dará ênfase aos projetos Agentes da Cidadania e Mais Educação, propostas educacionais que trazem inclusão, informação e promoção da auto-estima para as crianças e jovens. O Prefeito Samuel Araripe e o Secretário de Educação, Valentin Dantas, apóiam incondicionalmente o Sarau Poético da Escola Melvin Jones que já configura como um dos melhores eventos de educação e cultura do município.

Assessoria de Imprensa da Prefeitura Municipal do Crato
www.crato.ce.gov.br
http://www.prefeituramunicipaldocrato.blogspot.com

Dia 20 de Outubro – Dia do Poeta…Viva a Poesia do Kariri – Wilson Bernardo

Wilson Bernardo(Fotografia e Poesia)

Cordel para ao Aldemar – Rádio Araripe – 60 Anos – Por: Wilson Rodrigues

 

http://4.bp.blogspot.com/-SlD1ISxepzY/ToZptF3n1II/AAAAAAAAZzY/3FhGTAsNfJQ/s1600/radio_araripe400.jpg

Gostaria de parabenizar o poeta cordelista Aldemar, pelo seu cordel homenageando a Radio Araripe AM na passagem de seus 60 anos de radiofonia. Digo isto porque me sinto orgulhoso em ter pertencido aos quadros funcionais desta emissora a quem eu devo muito e foi nela onde aprendi o que sei no radio. Mas o poeta esqueceu de mim em suas rimas o que muito me surpreendeu. Ai fiz esses pequenos versos, embora eu não seja igualmente poeta.

Aldemar no seu cordel
Sobre a Radio Araripe
Esqueceu de um locutor
Que também foi da equipe
Que na sua trajetória
Está escrito na historia
Seu Aldemar, acredite.

Comecei varrendo a Radio
Em seguida controlista
E ano e meio depois
Já fazia entrevista
Fiz programa de Sucesso
Fiz também noticiário
E por mais de quinze anos
Fui da Radio funcionário.

Ao lado de Alexandre
De Robledo locutor
De Bandeira e Seu Eloia
E outros de bom valor
Trabalhei sem me cansar
Mesmo assim fui esquecido
Ignorado e excluído
Do cordel de Aldemar.

Eu não vou falar meu nome
Pois não adianta mais
A homenagem já foi feita
De uma forma bem aceita
Pelos que tinham mais cartaz
Mas no final eu lhe digo
Eu não vou me afobar
Só não vou ficar esquecido
Do cordel de Aldemar.

Wilson Rodrigues
Jornalista – Radialista

Canudos – A Saga do Povo Nordestino – Babi Guedes.por Elmano Rodrigues Pinheiro

CANUDOS, A Saga do Povo Nordestino, sob a ótica do poeta cordelista Babi Guedes, expõe em linguagem acessível os conflitos de um povo maltratado pelas intempéries. A região, historicamente caracterizada por latifúndios improdutivos, secas cíclicas e desemprego crônico, passava por grave crise econômica e social. Milhares de sertanejos e ex-escravos partiram para Canudos, cidadela liderada pelo peregrino Antônio Conselheiro, unidos pela crença de uma salvação milagrosa que pouparia os humildes habitantes do sertão dos flagelos do clima e da exclusão econômica e social.

Uma forte pressão junto à República recém-instaurada, pedia que fossem tomadas providências contra Antônio Conselheiro e seus seguidores. Criaram-se rumores de que Canudos se armava para atacar cidades vizinhas e partir em direção à capital para depor o governo republicano, reinstalando a Monarquia. Apesar de não haver nenhuma prova para esses rumores, o Exército foi mandado para Canudos. Três expedições militares contra Canudos saíram derrotadas, o que apavorou a opinião pública, que acabou exigindo a destruição do arraial, dando legitimidade ao massacre de até vinte mil sertanejos. Além disso, estima-se que cinco mil militares tenham morrido. A guerra terminou com a destruição total de Canudos, a degola de muitos prisioneiros de guerra, e o incêndio de todas as casas do arraial.

Uma ode para os cratenses! – Por Carlos Eduardo Esmeraldo


Hoje eu acordei com versos fervilhando em minha cabeça. Um poema que o russo Vladimir Maiakovski bem poderia ter escrito especialmente para nós cratenses. Mas em muita boa hora, Eduardo Alves Costa, um poeta fluminense radicado em São Paulo foi o autor dos versos que muitos erroneamente atribuem a Maiakovski, mas que provavelmente foram escritos diretamente para nós, simples mortais cratenses. Um povo escondido nessa mais que perdida cidadezinha envolvida pelas fraldas da bela Chapada do Araripe, único bem que nos resta e que talvez os donos do poder não poderão jamais nos subtrair.

“Na primeira noite eles se aproximam. 
Roubam uma flor do nosso jardim. 
E não dizemos nada. 
Na segunda noite, já não se escondem:
Pisam as flores, matam nosso cão, 
E não dizemos nada. 
Até que um dia, o mais frágil deles 
Entra sozinho em nossa casa, 
Rouba-nos a luz, 
E conhecendo o nosso medo
Arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada!
Já não poderemos dizer mais nada!”

Todas as flores dos nossos jardins foram despetaladas ao longo dos anos em que nossas lideranças foram sepultadas pelo voto que destinamos a candidatos de outras terras. De que adiantou aos cratense ajudar a eleger tantos deputados sem nenhuma preocupação com o Crato?
Somente sabemos choramingar quando perdemos melhorias ou entidades que poderiam vir para o Crato. Mas precisamos reconhecer que existe em cada um de nós cratenses, um comodismo sem igual. Ou uma alienação geral. Como que, esperamos que os benefícios caiam do céu como a chuva que molha toda uma região, indistintamente. Se nada vem para o Crato, nada também pleiteamos porque não escolhemos pessoas comprometidas com a terra, que nos representem e lutem pelo Crato junto aos governos federal e estadual.
Choramos porque os benefícios vão para o Juazeiro. Mas lá não há acomodação, o povo trabalha. Há mais de dez anos que ouvíamos notícias de que os deputados federais daquela terra lutavam para conseguirem uma Universidade Federal.
Quando prestei meus serviços ao governo estadual, fui testemunha de um fato que poderia servir de exemplo aos cratenses. Vi uma comitiva de lideranças juazeirenses: todos os deputados federais e estaduais daquela terra, lideres comerciais e representantes da sociedade nas pessoas dos dirigentes de clubes de serviços, todos juntos saindo do gabinete do Secretário de Estado para reverterem para cidade do Juazeiro a sede regional do DETRAN que estava prometida ao Crato.
Se não houver uma conscientização do eleitor cratense, principalmente daqueles que trocam seu voto por favores, continuaremos sendo fim de linha. Dentro de breve tempo, nem quem tem negócios a fazer com o Crato, porá os pés nessa cidade, pois os retornos já se encontram fechados. 

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

BARBÁRIE – Cacá Araújo

A alma
indômita da violência
trafega nas veredas do cotidiano

Nasce
fora do homem
e nele se instala sem medidas

O beijo
da morte se desenha
nos lábios da miséria, da exploração, da injustiça

A paz
é a utopia possível
que habita o futuro da humanidade
na sociedade dos felizes, na plenitude comunista

Cacá Araújo
Crato-CE, 11 de setembro de 2011

Vida e Obra de Gonzagão. por Elmano Rodrigues Pinheirolisa Moura: o gosto de cantar – Por: Emerson Monteiro

O mundo do repentismo, isto é, da improvisação poética ao som de violas, é recheado de modalidades, ao contrário, por assim dizer, do mundo do cordelismo, que é basicamente habitado por sextilhas, setilhas e décimas. Desse mundo, porém, grandes nomes se sobressaíram e se eternizaram no Brasil a partir dos últimos anos do século 19, como Silvino Pirauá, Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, João Melchíades, Firmino Teixeira do Amaral, Francisco das Chagas Batista, José Camelo Rezende e o mais biografado deles: Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, que alcançou o tempo da televisão e da internet.
Da nova geração, há muitos outros nomes já firmados no mercado, como os irmãos Klévisson e Arievaldo Viana, Allan Sales, Moreira de Acopiara, Cícero Pedro de Assis e Marco Haurélio, além dos profissionais que fazem cordel e música ao mesmo tempo, como Chico Salles, Costa Senna e Cacá Lopes.
Vida e Obra de Gonzagão, O mais completo cordel sobre Luiz Gonzaga é diferente dos outros que contam a história do Rei do Baião por ser todo escrito em estrofes de seis versos.
Até agora, ninguém havia se dedicado a desenvolver tal façanha.

Vertentes e Evolução da Literatura de Cordel. por Elmano Rodrigues Pinheiro


Como na letra da música Sertão grã-fino, Luiz Gonzaga e Marcos Valentim, o baião migrou para os salões e ganhou status de valsa. Graças à força de Chiquinha Gonzaga (Ô abre alas) e do próprio Luiz Gonzaga (Asa Branca). Finalmente a mídia reconhece que “a voz do povo é a voz de Deus”. E aborda temáticas populares em minisséries e novelas. Ariano Suassuna, no Auto da Compadecida inspirou-se em três cordéis: O cavalo que defecava dinheiro e O julgamento do cachorro, de Leandro Gomes de Barros, e O castigo da soberba, de Silvino Pirauá, e deu no que deu: retumbante sucesso.
O cordel, sem distinguir classes sociais, sempre andou de boca em boca por todos os rincões do País. A exemplo do rádio, que não perdeu terreno para a TV, e da música popular que invadiu os salões para aliar-se à valsa, a literatura popular conquistou seu lugar ao sol, ao assimilar o formato de livro para adultos, e do colorido infantojuvenil.
O cordel conquistou as escolas, virou tema de dissertações e teses em universidades do mundo inteiro e tomou posse em academias, para colher os frutos cultivados por poetas e xilogravuristas.
Vertentes e Evolução da Literatura de Cordel, de Gonçalo Ferreira da Silva, não tem pretensão de esgotar o tema, pois o trata com flexibilidade, ao abrir espaço para outras abordagens.

A FORÇA DO ABRAÇO – por Ulisses Germano

O abraço é o termômetro 
Que mede o calor humano 
Tem na sua intensidade 
O valor da sinceridade 
Que tece seu próprio plano 

Quem abraça oferece 
Afago ou desalinho 
Dependendo do abraço 
A gente sente o carinho 
Se for falso perde a graça 
Logo, logo se deslaça 
Perdendo o seu cadinho 

Quando é forte e duradouro 
Se assemelha ao infinito 
Que dura uma eternidade 
Nada assim pode ser dito 
O abraço que dei nela 
Foi tão forte que a costela 
Quebrou-se e eu ouvi o grito! 

COCO PARA MESTRE ALDENIR – por Ulisses Germano

Mestre Aldenir completou 77 anos de idade no dia 20 de agosto. Com mais de meio século brincando de reisado, é considerado por estudiosos como Rosemberg Cariri e Antônio da Nóbrega como uma das personalidade mais autênticas do folclore nacional. 

***** 

Mestre Aldenir 
Ninguém pode confundir 
É o Mestre da Cultura 
Que nasceu no Cariri 

Desde menino 
No tempo da lamparina 
Trabalhava no engenho 
Calejando as suas mãos 

Quis o destino 
Que o reisado o encontrasse 
Pra daí nascer o enlace 
Do folclore e o coração 

Mestre Aldenir 
Ninguém pode confundir 
É o Mestre da Cultura 
Que nasceu no Cariri 

Quem o conhece 
Sabe bem da sua glória 
No Crato fez sua história 
Espalhou muita emoção 

Agora vive 
Consagrado e bem amado 
Respeitado e admirado 
Sendo a própria tradição 

Mestre Aldenir 
Ninguém pode confundir 
É o Mestre da Cultura 
Que nasceu no Cariri 

Sua amizade 
Para mim é um tesouro 
Vale mais que todo ouro 
Ninguém pode nem medir 

Quando ele brinca 
De espada sai faísca 
É assim que ele arrisca 
Sua vida sem sentir 

Mestre Aldenir 
Ninguém pode confundir 
É o Mestre da Cultura 
Que nasceu no Cariri 

A companheira 
Que tanto o admira 
É a musa que o inspira 
Se chama Mestra Isabé 

Ela é a prova 
Do amor que vence tudo 
Seu espelho é o escudo 
Firme e forte de mulher 

Mestre Aldenir 
Ninguém pode confundir 
É o Mestre da Cultura 
Que nasceu no Cariri 

Eu me dispeço 
Desejando que ele viva 
Juntinho da sua diva 
Muitos anos bem feliz 

É que prossiga 
Ensinando humildemente 
A alegria pra essa gente 
Como ele sempre quiz 

NA PRAÇA

NA PRAÇA 

(Para Dona Janete Militão) – 26/08/2011 

Na praça a graça dos passantes 
Antes pássaros cantavam 
Encantavam a alma 
Armada de desejos 
Nos beijos de amores 
Odores de ar gostoso 
Gosto de pipoca 
No nariz 
Refiz minhas passadas 
Passadas imagens, lembranças 
Criança depois homem 
Chamem meu tempo 

FOTO: Dihelson Mendonça

TEMPO MADURO – Mário de Andrade ( Via Antonio Morais )

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui pra frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero está em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discuti assuntos inúteis sobre vida alheia que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturas. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretario do coral. As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa. Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera aleita antes da hora, não foge de sua mortalidade. Só há que caminhar perto de pessoas humanas de verdade. O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial.
Mário de Andrade.
Via ANtonio Morais -Blog do Sanharol

Momento da Prosa – Por Claude Bloc

Vida Viajante

Contraste480

Não lembro onde li esta frase:”Viajar cura a melancolia”. Creio que, a partir daí, fiz disso um lema, porque acreditei no que li. Eu tinha fases de apatia. Não de depressão, mas de recolhimento. Recordo apenas a impressão que esta frase me causou. Imaginei viagens. Viajei com a poesia. Viajei. Pendurei momentos como esses pelas esquinas do mundo e do tempo e me deixei absorver por esse ensaio de cura. Cura da melancolia.
Os anos se passaram, apagaram-se muitas estrelas na minha vida e, ainda hoje, não sei se viajar realmente é uma cura. No entanto, persiste em mim aquela curiosa impressão de que a frase que li naquele momento foi pura predestinação.

Na verdade, desde então, nunca mais parei de viajar. E a vida foi se pontuando de oportunidades. Até atravessei o país… Fui morar no Rio por oito meses, morei no interior de São Paulo por mais de seis anos e em pensamento me perdi entre mares e desertos, mudei de casa não sei quantas vezes e conheci a poesia mais de perto, perdida na vasta noite da inspiração… Avancei sempre, sem destino certo, tantas e tantas vezes. Mas… com certeza, sempre quis estar de volta aqui, ao Cariri.

O que sei, porém, é que tudo começou nesse dia. Era ainda noite fechada e eu estava na Serra Verde.  Levantei-me e parti em busca de respostas. Fui em direção ao açude Segui a rebentação daquelas ondinhas ali pela margem, apanhei seixos e búzios, contornei a parede do sangradouro; afastei-me de casa o mais que pude. O sono não chegava. Acompanhei a trajetória da lua refletida nas águas. Vi a manhã erguer-se, branca, e envolver o Alto do Caboclo; vi, tudo isso também em outros dias: crepúsculos e noites sobre aquele espelho… e amei a existência com todas as minhas forças. Nessa noite, adormeci ali, onde calhou: no meio daquela areia granulosa, enroscada em meus próprios braços, como um animalzinho indefeso… Quando regressei, regressei com a ânsia de uma eterna viajante dentro de mim.

Hoje sei que não consigo parar de me locomover prá lá e prá cá. Quantas e quantas cidades conheci assim? Perdi a conta. E aprendi que o/a viajante ideal é aquele/a que, no decorrer da vida, se despojou das coisas materiais e que viaja mesmo quando executa as tarefas quotidianas. Que posso viver mesmo sem possuir muita coisa, mas nunca sem adquirir meu próprio modo de vida. É assim que tento conduzir a vida: caminhando, com a leveza de quem abandonou tudo aquilo que nada lhe acrescenta. E viajo sempre deixando o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma, no puro sopro dessa caminhada, se recompõe das aflições da cidade.

E foi também dessa forma que, pouco a pouco, aprendi que vejo as coisas de forma diferente do que outros viajantes veem, ao passarem pelos mesmos lugares. Acredito que o olhar de cada um, sobre as coisas do mundo, é único. Se viajar, não cura a melancolia, pelo menos, percebo que purifica a alma. Traz ao passageiro desta vida a paz de espírito; e deste modo, o corpo reencontra a harmonia perdida – entre o homem e a terra. Dessa forma tornei-me nômade: ao saber que não fui feita para ficar quieta. Ser sedentário/a me empobrece, mata-me a alma, estagna meu pensamento. Por tudo isto, como viajante, escolhi caminhar nessa linha. Nela eu canto, escrevo, vivo. Sou uma fagulha que viaja nesse Universo.

Por: Claude Bloc

Por Chico Norões

Versos à “Mãe”* 

“Mãe”, como tu estás feliz
Pois Deus assim o quis
Te levar sem sofrimento.
Não sofreste nenhum mal
Nem ficastes em hospital
Tudo é contentamento.

Me disse o Padre Manuel
Que a senhora vai pro céu
E vai gostar, com certeza.
Ao se encontrar com Valdir
Não se lembrará daqui
Tudo será só beleza.

Pra “Mãe” iremos rezar
Dos teus terços nos lembrar
Quando “Mãe” os distribuía.
Com aquela satisfação
Já os trazia na mão
Pois “Mãe” mesmo os fazia.

Ministra da Eucaristia
Com muita sabedoria
Visitava os doentes.
Levando palavras de amor
Rezando pra nosso Senhor
E todos ficavam contentes

Foi assim a tua vida
Por todos era querida
Uma pessoa de Deus.
Por isso que eras “Mãe”
Com coração sem “tamãe”
Todos somos filhos teus.

Crato, 4 de abril de 2011

Chico Norões

* Epunina Ferreira Silva

LÁGRIMA – Por: Cacá Araújo

Foto de Stálin Araújo

Por que não chega
A raiva, o ódio e a rebeldia
Deste amor profano?
E eu beberei até o sol sair
Me tostar as faces

Por que não chega
A fome e a falsa coragem
de gritar, subir, pular
Cair d’um edifício?
E acabarei co’a dor
Morrendo em teu louvor

Por que tu não não vens de noiva?
Pra me afogar na cama
Pra me acender o corpo
E amar, correr, suar
Melar, gemer, urrar
E só sair de dentro
Quando o amor se destruir
Se o amor se destruir
Fugir, morrer, saltar
Pela janela

Por que não chega
A decisão, o sim, o não
A flor, a faca?
Pra me mostrar o brilho, se for
Ou a escuridão


Cacá Araújo

Crato-Cariri-Ceará-Brasil

MOMENTO DA POESIA – Claude Bloc

As coisas do tempo
- Claude Bloc -
Hoje me recuso
a interpretar
as coisas do tempo…
Não ouso mesmo
mudar nada
pois ainda guardo nos olhos
as cores das flores
no jardim da minha infância

ainda atiro pedras
sobre o espelho d’água do açude,
ainda ouço os sinos
da igreja da Sé
cedinho, aos domingos,
despertando os homens
e os arcanjos

ainda ouço em silêncio
a sinfonia suave das pétalas
e das noites escuras

ainda tenho na boca
o gosto dos bolos
que minha avó fazia
nas férias de julho.

Enquanto isso, a vida seguia
a gente contava histórias de fadas
e eu
desenhava nos meus pensamentos
um mundo muito mais perfeito
que os fins de todos esses contos:
um mundo sem países
e sem fronteiras.

Eu era como os pássaros soltos
que fazem o seu trajeto:
eu voava livre…

Por isso
hoje me recuso
a interpretar
as coisas do tempo.
Não ouso
mudar nada…
Claude Bloc

MOMENTO PARA A PROSA (POÉTICA) – Claude Bloc

 

Mundo Acalentado
- Claude Bloc -
.
Claude Bloc, Célia Ribeiro, Ismênia Brilhante, Gracinha Pinheiro, Simone Brilhante

Há dias em que toco a vida transcendendo meus propósitos. Tento me prender à racionalidade, mas acabo descambando para sentimentos pardos, nostálgicos. Sei, tenho consciência disso, simulo realidades. Perambulo pelo tempo como se pudesse domá-lo. Uma hora, sinto-me presa a ele, outra me sinto livre… De repente, tudo aparece como num sonho mesclado de cheiros, gostos, sons, sentimentos antigos, empoeirados… aí, então, percebo em que se transformou o meu mundo. Aí então, desperto.

Esse meu mundinho acalentado, atualmente, não passa das paredes de meu quarto (que nem é meu). Ele foi se estreitando, se delimitando, pois já não cabe tanta coisa.
Pela estante e prateleiras muitos livros, alguns CD´s, computador, notebook e uma parafernália de fios e telefones portáteis… enfim, minhas coisas mescladas a tanta tecnologia quanto nostalgia. Certas vezes, essas lembranças me fazem chorar de saudade dos (meus) tempos de gravador , da vitrolinha de mamãe que tocava, com o auto-falante na própria tampa, os discos de vinil estampando aos meus ouvidos a bossa-nova, as canções francesas, as italianas, as baladas americanas, o violão de Dilermando, as músicas clássicas… Um pouco de tudo.

Recebi outro dia um e-mail de uma amiga que falava sobre as lembranças que temos de determinadas coisas… Lá estavam fotos de gente sorrindo, gente com as roupas do meu tempo, cabelinhos cortados com franja, brincadeiras de amigos pela rua, pela casa… Minha nossa, foi um chororô danado… Inclusive porque me lembrei das brincadeiras no Pio X, o jogo do ”mata” que fez com que nossa farda de educação física mudasse, para que os meninos não conseguissem ver as nossas pernas adolescentes…
Lembrei-me também dos problemas que atravessava, próprios da idade, como a minha incorrigível timidez, a insegurança que sentia quando meu corpo de menina se transformava provocando, agora, olhares… e aquela palavra que me fazia encolher-me de vergonha: francesinha!

Tinha também problemas de adaptação com os modos de algumas pessoas como a implicância de D. Chiquinha Piancó. Beliscões nos braços se ela me encontrasse sem mangas. O acintoso observar dos meus pés com o objetivo de saber se o pé que ia pra escola sem sapato, estava machucado de fato… Como eu era bobinha e inocente!

Pensando bem, como o tempo voa! Ainda ontem eu saia para as festas de 15 anos. Ainda ontem, eu dei o primeiro beijo (já bem tardio)… Ainda ontem, passei no vestibular, e não é que até hoje estou lá na URCA presa no passado – que queria que passasse, mas que teima em não sair de minha vida.

Pois então, com um passado tão doce, como eu poderia me preparar para o futuro? Enganaram-me dizendo que tudo ia ser lindo, que eu ia dar certo e que tudo ia ser florido e lindo em meus lindos e sorridentes dias.

Esqueceram-se de me mostrar e me preparar para esse mundo sem fronteiras, esse mundo que me engole na primeira mordida e me prende pelas grades de meu quarto a um passado lindo, cheio de sonhos, mas sem perdão…
Claude Bloc

MOMENTO DA POESIA – Por: Claude Bloc

 

(Em) Tudo
- Claude Bloc -


Em tudo o que sou
estás.
Estás comigo
sem o teres sentido.
Em tudo
o que poderia ter sido.

Em mim,
és tudo ( à minha volta.)
unindo versos
rasgando prosa.
Claude Bloc

PROSA POÉTICA – Claude Bloc

 

Nas tuas águas
- Claude Bloc –

Tantas vezes me aqueço com as estrelas enquanto dormes.
E quando te olho de longe ficas cinzento, águas plácidas, (lembranças, lembranças minhas…) Será que também sofres,quando mudas de cor?

O sol nos seca nesse longo estio e seca também o brilho que derramas quando ficas sem viço, sem sossego. Prossegues em mim, pois és como uma janela que o tempo abriu, és imprescindível.

Assim, preciso de ti, da tua luminosidade, assim como preciso do sol, das estrelas, da lua, nessa distância que te esconde de mim quando me queres ninar…

Gosto de ti quando estás azul. Quando o dia chega e quando te transformas nos finais de tarde …
Então, segues de mãos dadas com o sol, trocando beijos com a lua numa cumplicidade que me faz sonhar.

Hoje, só quero que guardes meus segredos e o mundo todo que espelhas nesse céu refletido… Só então, poderei chamar um exército de anjos para se banharem nas tuas águas aprisionando, a cada dia, a paz no teu reflexo.

Agora, apaga as estrelas e deixa-me dormir, enquanto a lua nos guarda, enquanto a vida se arruma.


Claude Bloc

BOM DIA, SEGUNDA-FEIRA – Claude Bloc

 

Simplicidade
- Claude Bloc -
Sentar à sombra da árvore
Água fresca pra beber
A correnteza a da vida
A ditar o seu revés

Caminhar à toa
Sem ter nada pra fazer
Respirar o ar inteiro
Comer frutos da estação.
Eis a vida, em sua simplicidade
E em ingênua aparência
Vai seguindo
Compassada…
Onde estará o seu sonho?
Na noite escura
As fogueiras se acendem
clareando a poesia.
silêncio versejando
o futuro,
a (in) incerteza…
E num momento
Quando o sol se curva
O presente
Vai deixando sua porta entreaberta …
Claude Bloc

DOMINGO (IN)VERSOS – Claude Bloc

 

O outro lado
- Claude Bloc -
Quem sabe o espelho seja
uma outra parte do que somos
o outro lado de nós mesmos
onde vasculhamos
o outro lado do outro,
em seus múltiplos sentidos…

E para nos encontrarmos
do outro lado
do outro lado da rua
do outro lado do outro
o espelho nos olha de lado,
disfarçando o sentimento
procurando nos olhares
o nosso próprio olhar
o olhar que nós perdemos
e que o outro
(espelho)
também procura .

Claude Bloc

REFLEXOS… – Por: Claude Bloc

 

Grávidos sonhos
- Claude Bloc -

A força da escrita é tão grande em mim que perpassa minha vontade, que resiste ao momento, toma forma, me influencia, enfim, me assume num impulso, me toma o fôlego e conduz minha mão à luz do entusiasmo criador… torna-se vital quando transparece, permanecendo viva à flor do pensamento.

Por isso, sinto-me remotamente controlada, confrontada pelas palavras, num jogo incansável… Nessa ordem de idéias, escrevo por tudo o que transcende e resiste ao tempo. Escrevo para desagravar a alma. Para aguentar os repuxos. Para sintonizar o tempo.

Assim, permito-me sentir a liberdade quando ela grita, quando me restam grávidos sonhos, aqueles que não consigo reter, aqueles que não têm ecos, ressonâncias e que se enclausurados lutam para me suster de palavras em busca do sol.
Claude Bloc
Dedico a Dihelson

AQUARELANDO FLORES… – Por: Claude Bloc

 

Para ouvir o vento
- Claude Bloc -
Que todos os dias voltem
a ter novas cores,
entre flores-guardiãs.
E nessa dança vital,
possamos viver
a pacífica liberdade,
as passagens da idade
o que queremos ter.
Que nossa raça seja una,
humana
nessa transitoriedade
de vida e coragem
.
Porque calar
é mesmo coisa rara
mais ainda em pensamento:
quando a vida estanca
quando a voz se estampa
quando o silêncio se instala
quando perdemos a fala
para ouvir o vento.
Claude Bloc

Amar com 15 anos no 2010- Por: M.Gabriella Federico

 




Você

“Se enterrar na areia sem usar as mãos,
Felicidade sem olhar pro chão,
ter certeza sem o mínimo de razão.

Olhar as estrelas e ver você,
medo, amor, felicidade,
paixão para cada estrela no céu uma emoção.”

(Lorenzo Alfaro)

O Gato – Claude Bloc

 Eu escrevo versos
Ele…
pula (in)versos
descreve sinuosidades
piruetas, malabarismos

Quando encontro a rima
lá se vem o gato
pisando no meu teclado
borrando o meu bordado
e nessa acrobacia
vai digerindo o tema
(com leveza e graça )

o gato habilmente
conseguiu o seu intento
(produziu o que queria)
ser a inspiração e a sinfonia,
o maestro insigne,
a minha própria poesia.
Claude Bloc
Fotos: pés de Ricardo Rocha
Gato (de Elvira – em D. Quintino – CE)

Edilma Rocha agradece pelo poema de Claude Bloc

 


É tão belo quando se tem amizades verdadeiras! Amizades que não podem ser abaladas por convicções políticas, religiosas ou outras ninharias. A Claude Bloc escreveu hoje um belíssimo poema dedicado à sua amiga Edilma Rocha, e colocou uma foto da mesma, trabalhada artísticamente, que pode ser conferido algumas linhas abaixo. Em retribuição, Edilma Rocha escreveu, por outro lado, este belo poema, que de modo algum deveria ficar escondido por entre os comentários, mas transformado agora em artigo:

“Claude,

Eu sou o que sou na sua poesia em homenagem…
Eu sou o sorriso sem palavras ?
Eu sou a lágrima e o olhar distante ?
Eu sou o presente e o passado ?
Eu sou forte, inteira e única ?
Eu sou livro, sou enigma, sinal ?
Eu sou voz, sou amiga, sou irmã.
Sou a verdadeira amizade que vingou e ficou…
Obrigada pelas lindas palavras…
Sem palavras…

Beijo !”

Edilma Rocha

REFLETINDO A POESIA DE THIAGO DE MELO -Por Maria Otilia

 

Leia e medite esta linda poesia de Thiago de Melo, já que estamos entrando no clima de uma das mais belas festas dos cristãos que é o natal.


PÃO PARA OS QUE VIRÃO

Thiago de Melo
Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular – foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Extraído do site : http://www.fisica.ufpb.br
Postado por Maria Otilia

POEMA EM SOL MAIOR… Claude Bloc

 

.
Por falar em amizade
- Claude Bloc –

 
Você é …
mais que palavras

mais que um sorriso
atônito, perdido.

Você é
lágrima,sorriso,
olhar distante…
é muito mais
que esses fragmentos
de um tempo que já passou…
Você é passado e presente
Assim, assim mesmo
Dessa forma que é…


Você é presença

Inteira, única…

frágil quando sonha
forte quando quer mais da vida.

.

Você é
dar-se sem nada ter.
Você é o livro
por ler,
Metáfora-mulher
Enigma
Sintagma

Sinal.



Você é
mais que palavras,
mais que essa voz
que se perde no espaço
e diz quase nada

do muito que é.

Você mais que tudo
é essa amiga
essa irmã em contrapartida.

Claude Bloc

Música de Qualidade - 24h!



300x250advert

VIDEOS EM DESTAQUE

GALERIA DE FOTOS

Previsão do Tempo


EDIÇÕES ANTERIORES

maio 2012
D S T Q Q S S
« abr    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Rede Blogs do Cariri




Clique no Logo acima e visite o site oficial da Rede.

Mural Chapada do Araripe



TV CHAPADA DO ARARIPE



A TV Chapada do Araripe é composta por uma coleção de vídeos, entrevistas e reportagens. Escolha o vídeo que deseja assistir, clicando sobre o título. Veja mais detalhes na página da TV Chapada do Araripe.

HOMENAGEM DA SEMANA


CORREINHA

O Chapada do Araripe presta homenagens a um dos maiores mestres da cultura popular que faleceu em Crato recentemente, Francisco Correia de Lima, o Correinha, artista de várias linguagens atuante no município do Crato. Mestre Correinha nasceu no município de farias Brito no dia 14 de fevereiro de 1940, mas era um amante inveterado do Crato, município ao qual costumava fazer referências em suas canções. Talvez por não ter tido seu nome incluído nas listas anuais de mestres reconhecidos pelo Governo do Estado desde 2004, mestre Correinha tenha sido sepultado em meio a homenagens comoventes de moradores do município, mas, como ressaltaram amigos e familiares, sem o devido destaque por parte do Poder Público. Situação destacada durante a sua missa de corpo presente, enriquecida pelo acordeon de Hugo Linard, com quem Correinha gravou recentemente, 15 canções que agora constituem o último registro de sua obra. Segundo o próprio Hugo Linard, as canções registradas nesse último trabalho de Correinha em estúdio são, na maioria, inéditas. ´Ele gravou também ´Belezas do Crato´, mas as outras não tinham registro´, diz, citando canções como ´Coisas do meu sertão´, ´Exaltação a Barbalha´, ´Crato de Açúcar´ e ´Meu Cariri´ e ´Balanceio´. ´Fazia tempo que a gente tava cutucando ele, dizendo que ele tinha que gravar de novo. Ele fez dois compactos e outros discos, no tempo do vinil, além de vários cordéis´. Hugo Linard chama atenção para aspectos peculiares da trajetória de Correinha. ´Ele mantinha um bar aqui no Crato e ainda trabalhava como agente carcerário. Era tão querido que os presos pediram à família por ocasião do seu velório, para deixar um pouco o corpo dele lá na cadeia, para eles o homenagearem´.
Dalwton Moura

Jornal do Vicelmo

Todos os dias na Rádio Chapada do Araripe - Internet, a partir das 07:00, ouça o Jornal do Cariri com Antonio Vicelmo. O Jornal é retransmitido da Rádio Educadora do Cariri em tempo real. Você pode ouvir o programa através da nossa imensa rede de Blogs e websites. Alguns programas antigos estão disponíveis no nosso website Jornal do Vicelmo.

AUXÍLIO À LISTA

Dicas de Filmes



Por trás de todo o grande homem se esconde um professor, e isso era certamente verdade para Bruce Lee que aclamava como seu mentor um expert em artes marciais chamado Ip Man. Um gênio do Wushu (ou a escola de artes marciais da China), Ip Man cresceu numa China recentemente despedaçada pelo ódio racial, radicalismo nacionalista e pela Guerra. Ele ressurgiu como uma Fênix das Cinzas graças à suas participações em lutas contra vários mestres Wushu e lutadores de kung-fu - finalmente treinando icones de artes marciais como Bruce Lee. Esta cinebiografia do diretor Wilson Yip mostra a história da vida de Ip.

Como Publicar seu Artigo


Agora você pode entrar em contato conosco diretamente. Se vc deseja publicar algum artigo que julgue importante para o Cariri, entre em contato conosco. Todos os artigos aprovados serão devidamente creditados aos autores. Os melhores artigos merecerão destaque, e se continuados, os escritores e cronistas poderão se tornar membros permanentes doportal Chapada do Araripe. Contatos: MSN e E-mail: blogdocrato@hotmail.com

Quem somos Nós

O Chapada do Araripe é um site sem fins lucrativos, que visa promover a imagem da região do cariri cearense na Internet. Se você deseja publicar algum artigo no portal Chapada do Araripe, entre em Contato conosco.

Direitos Autorais:

DM Studio – Comunicação & Marketing. Algumas partes do Chapada do Araripe estão sob uma “Licença Creative Commons”, e outras, de acordo com seus respectivos autores, com “Todos os Direitos Reservados” –

www.chapadadoararipe.com - 2012

Contatos: Dihelson Mendonça – MSN e E-mail: blogdocrato@hotmail.com

© 2012 Chapada do Araripe - -